quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

CANOA ALTA

Enredo do samba do 1º carnaval de rua -1988
Tema: Relembrar o passado e falar do presente
Letra e Música - Varlei Antonio Péres

Chegou a hora
nossa escola vai sair
Canoa Alta (bis)
pelas ruas vai surgir.

Canoa Alta
muito alegre navegando
e pelas ruas
o povo todo desfilando.

O passado saudoso
vai ficando bem distante
as palmeiras em leque
continuam verdejantes.

Hoje tudo é alegria
samba suor e fantasia
vamos todos desfilar

das tristezas esquecer
pois o leite derramado
não adianta chorar.

Chegou a hora... (bis)

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

PIQUIRÁ

Ai que saudades que dá!

Hoje me vem na lembrança, uma das mais belas maravilhas da Velha Igaratá.
A cachoeira do Piquirá!

Após a junção dos Rios do Peixe e do Jaguari, formava-se uma grande cachoeira batizada com o nome de Piquirá.

Na realidade, não era bem uma cachoeira, já que era formada por inúmeras quedas d’água de no máximo dois metros de altura, com uma extensão aproximada de quinhentos metros.

No final da corredeira, uma grande lança de pedra invadia até a metade do leito do rio, formando logo abaixo um grande remanso.

Do lado esquerdo de quem descia a corredeira, bem em frente a esse remanso, morava o César. No final, relatarei quem era o César.

Piquirá! Poucos sabem a origem desse nome.

O fenômeno que conhecemos como Piracema, somente ocorria nessa corredeira.

Após a subida dos peixes, ocorria a desova e conseqüentemente nasciam as chamadas “piquiras”. Nome oriundo da Língua Tupi/Guarani, que significa peixe pequeno.

Essa era a época esperada, principalmente pela população mais carente.

Indefesas centenas de milhares de piquiras tentavam transpor as pequenas quedas d’água, onde se tornavam presas fáceis.

Um dos lugares mais disputados para a captura das piquiras, era chamado de Bico da Pedra.

De posse de um instrumento rudimentar, constituído de uma vara de bambu, adaptando-se a mesma uma peneira do mesmo material, aquelas peneiras que se usava para escolher feijão, a pescaria estava feita.

Numa única noite, era possível até, encher dois jacás de piquiras, que seriam transportadas no lombo de um burro, para serem comercializadas na Velha Igaratá e até em Santa Isabel.

A piquira não tinha mais do que três centímetros. Podia ser fritada para se comer na hora ou transformada em paçoca, a qual poderia ser estocada por um bom tempo.

Nessa época, quando os peixes subiam o rio para a desova, tornavam-se também presas fáceis.

César que morava no Piquirá, conforme anteriormente relatado, com muito custo sobrevivia da criação de algumas cabeças de gado, pequena roça de milho e feijão, também estava atento. Era a hora certa de construir o “Pari”.

César conhecia muito bem a corredeira do Piquirá.

Do mesmo lado onde morava, formava-se um canal paralelo a corredeira, com mais ou menos dois metros de largura, preferido pelos peixes para a subida, já que as águas, mesmo bastante agitadas, nesse canal eram mais mansas, permitindo com mais facilidade a escalada dos peixes para a procriação.

Vamos agora falar do “Pari”.

“Pari” era uma armadilha rudimentar construída com bambus e uma tela de arame, a mesma utilizada para se construir um galinheiro.

Os bambus eram colocados horizontalmente formando paredes dos dois lados do canal.

Quase no final do canal, a tela de arame era colocada deitada, num espaço de mais ou menos dois metros, permitindo dessa forma a passagem da água.

Os peixes, tentavam superar os obstáculos, e os que não conseguiam, caiam na tela e se debatendo pela falta d’água, não tinham outra saída, deslizavam pelo corredor formado pelos bambus, onde facilmente logo mais abaixo eram capturados.

Infelizmente, naquele tempo, a fiscalização, a conscientização do povo praticamente não existia.

A fiscalização deveria sim existir, não para penalizar a população, pois a maioria era carente, mas sim para orientar que esse procedimento, a pesca predatória dizimaria em pouco tempo os cardumes, transformando-se numa arma fulminante contra os próprios pescadores que assim agiam inocentemente.

Enfim, o bom mesmo é lembrar, da pujança dessa corredeira, que para quem não teve a felicidade de conhecer, pode ter uma noção, se compara-la com as famosas “Sete Quedas” que também teve o mesmo destino.

Para o desenvolvimento do nosso País, para a construção de um reservatório para a regularização do Rio Paraíba, como foi o nosso caso, ou para a construção de usinas hidroelétricas, desapareceram definitivamente da face da terra !

PESCARIA NO PIQUIRÁ

Agora vou narrar sobre um dos poucos lazeres da Velha Igaratá.

O Gustavo Claudiano era o Coletor Estadual, o Chico Lourenço era o Tesoureiro da Prefeitura e eu era funcionário dos Correios e Telégrafos.

O nosso lazer predileto era pescar.

Certa vez como já era de costume, partimos para uma pescaria. O local escolhido era um braço de rio pertinho do Piquirá. Diziam que lá não se perdia a viagem. Bagres e traíras eram o que mais tinham.

Será que era verdade mesmo? Para se ter certeza mesmo, só indo lá conferir.

Numa tarde calorosa, lá pelas cinco da tarde, cada um com duas varas já preparadas, saímos em busca dos peixes que conforme comentavam, lá existiam e muito.

Da Velha Igaratá até o local escolhido a distancia era de mais ou menos uns quatro quilômetros. Da “Vila” até a ponte do Jaguari, a estrada era a estadual que ligava Igaratá à Santa Isabel. Após passarmos a ponte dobrávamos à esquerda, pegando a estrada municipal que ligava Igaratá à Jacareí.

Enquanto o Chico Lourenço ia assobiando, pois era o que mais gostava de fazer quando caminhava, o Gustavo e eu fazíamos planos de como preparar os cuscus e os bagres ensopados que pretendíamos fazer e saborear após a pescaria.

Há um quilômetro do local, deixávamos a estrada municipal, e pelas trilhas feitas pelo gado, enfrentávamos um sapezal com mais ou menos um metro de altura. Enfim, chegávamos ao local.

Como o braço do rio era pequeno, pois só recebia água na época das chuvas que aumentava o nível do Rio Jaguari, ficávamos pertinho um do outro, mais ou menos uns três metros de distancia.

Começava a escurecer. Era a hora certa das puxadas dos bagres e das traíras.

De repente, o Gustavo consegue tirar um bagre e o Chico Lourenço fisga uma traíra. Eu, nada!

Estou distraído, e quando olho, a vara embodocou tanto, que a sua ponta já estava dentro da água. Dou aquela fisgada! A vara quebra-se ao meio. Desesperado, consigo pegar a ponteira da vara e puxar. O Gustavo e o Chico Lourenço, com os olhos arregalados cochichavam: que cara rabudo! Esse é dos bons!

Antes fosse. Mas que desilusão!
O peixe não era nada mais nada menos que um cágado tamanho família! Nessa altura da pescaria, fiquei apenas com uma vara. A reserva já era.

Não foi necessário mais do que dez minutos para sentir outra carregada. Não preciso nem repetir. Outra vara quebrada, outro cágado!

Gustavo e o Chico Lourenço esborrachavam de tanto rir. Gustavo dizia: Varlei é o rei do peixe bolacha!

Quando o lugar fica infestado, é melhor desistir. Os peixes somem como por encanto.

Resolvemos então retornar à Vila. Estava escuro que nem breu!

Gustavo sai na frente com seu farolete, com as pilhas quase descarregadas, não iluminava quase nada.

De repente, um gemido na noite!

Cadê o Gustavo?
Estirado no chão, lá estava ele. Gustavo havia saído da trilha, e como o sapé estava muito alto, não percebeu e meteu o peito num cupim.

Gustavo não se dá por vencido. Levanta e sai na frente de novo.

Não chegou a andar mais do que cem metros e, vendo um lugar mais claro, resolve dar um pulo.

Que desastre! Gustavo cai sentado em cima de uma vaca branca!

Outro gemido na noite!

A vaca se levanta assustada, Gustavo cai para um lado, e os poucos bagres e as varas para o outro lado.

O Chico Lourenço e eu rachávamos de tanto rir.

Na caminhada de volta, após pegarmos a estrada municipal, o assunto era um só.

Peixe bolacha, cupim, vaca espantada, e gemidos do Gustavo.

Que peixe ensopado, que cuscus que nada!

Foi mais uma pescaria frustrada...

ORIGEM DO MUNICÍPIO DE IGARATÁ

O Município de Igaratá originou-se da antiga Capela de Nossa Senhora do Patrocínio em território de Santa Isabel.

Elevado à Freguesia com o mesmo nome em 1864 e, incorporado ao Município de São José do Paraitinga, ficou pertencendo ao termo de Jacareí e São José.

Elevado a Vila com o mesmo nome em 1873, continuou pertencendo ao termo de Jacareí e São José.

Passou a pertencer a Comarca de Santa Isabel pela Lei nº 80 de 25 de agosto de 1892.
A Lei nº 1.042 de 22 de dezembro de 1906, mudou o nome de Patrocínio de Santa Isabel para Igaratá.

O nome Igaratá é originário da Língua Tupi/Guarani, que significa “CANOA ALTA” (IGARA-TÁ).

Reconduzido a condição de Distrito de Paz pelo Decreto nº 6.448 de 21 de maio de 1934, foi anexado ao Município de Santa Isabel.

O Município foi restabelecido pela Lei nº 2.456 de 30 de dezembro de 1953, publicada no Diário Oficial do Estado em 1º de janeiro de 1954.

Com a construção da barragem, no dia 5 de dezembro de 1969 as comportas foram baixadas, iniciando o represamento do Rio Jaguari e a formação do reservatório com o mesmo nome.

Esta foi a data imposta pela CESP para a desocupação das áreas a serem inundadas, inclusive a sede antiga do Município, carinhosamente chamada de “Vila”.

Através da Lei nº 317 de 14 de dezembro de 1971, na gestão do então Prefeito José Pinto da Cunha, foi instituída a data de 5 de dezembro de 1969, a data de fundação da nova cidade.

A Lei nº 355 de 6 de novembro de 1973, na gestão do Prefeito José Afonso Barbosa, revogou em todos os termos a Lei nº 317/73.

Conforme pesquisas, tomou-se conhecimento de que cada Município somente poderia instituir quatro feriados e estes já estavam definidos por outras leis.
Este foi o motivo alegado para a revogação da Lei 355/71.

Posição geográfica:

A posição geográfica desta cidade está localizada da seguinte forma:
Longitude: 46º 09’ 19”;
Latitude : 23º 12’ 24”.
Altitude: Pátio da Matriz de Nossa Senhora do Patrocínio: 773,00 m acima do nível do mar.

Área do Município de Igaratá: 301 Km2.
Limites:

Igaratá limita-se com São José dos Campos, Jacareí, Santa Isabel, Nazaré Paulista Piracaia e Joanòpolis. ( o limite com o município de Joanópolis é de apenas 100 metros de extensão).

Feriados Municipais:
Fixos:
30 de dezembro – Comemoração da Emancipação Política Administrativa do Município;
05 de dezembro – Comemoração da Fundação da Nova sede do município.

Móveis:
Corpus Christi;
Sexta-Feira Sanra.
Cabe também lembrar que no dia 26 de novembro de 2004, a Lei nº 1.191 instituiu novamente a data de 5 de dezembro como a data de fundação da nova sede do município, revogando a lei que instituía a data de 13 de julho em comemoração a Nossa Senhora do Patrocínio. ( as festas em homenagem à padroeira são realizadas tradicionalmente no mês de novembro).

Caros leitores.
Aí vocês tiveram um breve relato da origem do Município de Igaratá como também sobre alguns dados importantes.

As pessoas que não foram nascidas neste Município, de alguma forma tomaram conhecimento da existência deste pedacinho do céu e para cá vieram para ajudar no crescimento e na prosperidade desta comunidade.

Eu também sou uma dessas pessoas e, a partir de agora, vou narrar como cheguei na “Velha Igaratá” e sobre tudo que pude guardar na memória durante os 60 anos dedicados ao Município de Igaratá.
Vamos viajar ao passado!
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A LENDA DO POÇO DO OURO

Como surgiu esse nome?
O Rio do Peixe, a uns duzentos metros antes de desaguar no Rio Jaguari, tinha uma bela cachoeira com a altura aproximada de cinco metros.

Após a queda d’água, formava-se um grande lago que ia afunilando-se até voltar ao leito natural do rio, onde logo abaixo desaguava no Rio Jaguari, onde começava a formar a corredeira do Piquirá.

Esse grande lago foi batizado com o nome de “Poço do Ouro”.

Consta a lenda, que na época da exploração das jazidas de ouro localizadas nas Minas Gerais, alguns feitores estavam desgostosos com aquela quantidade de ouro que era extraída e levada aos portos para serem embarcadas e transportadas para as terras lusitanas.

Certa feita, contando com o apoio de alguns escravos, resolveram se apoderar de parte desse ouro, pois como feitores, não teriam chance alguma de enriquecerem. Passariam o resto da vida tomando conta dos escravos e das extrações do ouro.

As altas horas da noite, após arriarem alguns burros e colocarem nas cangalhas alguns pilões de ouro, começaram a odisséia.

Vários eram os caminhos que levavam aos portos. Um deles passava justamente pela aldeia, que na época chamava-se Capela de Nossa Senhora do Patrocínio, antiga sede do município.
Esse foi o caminho escolhido.

Ao amanhecer do dia, os feitores, aliados à Coroa Portuguesa, descobriram a trama, pela falta de vários burros, escravos, feitores e principalmente pelo sumiço de vários pilões de ouro. Esse era o nome dado, pois o ouro ao ser forjado, tomava a aparência de um pilão.

Arriaram os cavalos restantes e começou então a perseguição aos vilões que haviam se apoderado de tamanha riqueza.

A tropa que transportava o ouro roubado seguia mais lentamente, pois os burros carregados de tanto peso, precisavam sempre parar para se alimentarem e descansarem.

Quando estavam próximos desse grande lago, uma sentinela que estava no local mais alto, enquanto a caravana se alimentava e descansava, avistou ao longe a tropa que vinha em perseguição dos fugitivos, com a finalidade de recuperar o ouro roubado e punir com severidade os ladrões ambiciosos, talvez com a própria morte.

Os feitores e os escravos fugitivos, vendo que tudo estava perdido, pois não teriam como escapar, já que os animais, além de estarem carregados e também muito cansados, resolveram então se livrar do ouro roubado.

Não querendo que o ouro fosse recuperado, jogaram todos os pilões nesse grande lago e se embrenharam pela mata nativa existente na época, escapando da tropa que os perseguiam.
Muito tempo passou e ninguém praticamente se lembrava ou falava dessa bravura que teria ocorrido.

Mas como é comum, sempre existe as famosas rodinhas de bate-papo, e um dos escravos mais antigo, narrou a existência desse acontecido.

Um fazendeiro muito poderoso da época tendo tomado conhecimento desse fato, resolveu elucidar o caso e tentar resgatar essa preciosidade que se encontrava no fundo desse lago, conforme narrado pelo escravo.

Juntou algumas parelhas de bois, vários escravos e capitães do mato, muitas correntes e saíram a procura do famoso poço que tanto era falado.

Ao localizarem o lago, começou então a procura pelos famosos pilões de ouro.

Dias e mais dias foram se passando e nada de conseguirem resgatar um pilão si quer. Já estavam desanimados e, a provisão de alimentos já estava chegando ao fim. Não poderiam ficar se alimentando apenas de caças, como capivaras, pacas e tatus que na época eram abundantes.

O fazendeiro desesperado, já não sabendo mais o que fazer, ajoelhou-se e prometeu que, se ele conseguisse resgatar pelo menos um pilão de ouro, daria metade à Santa.

Outras tentativas foram feitas, até que a corrente enrosca em algo no fundo do poço. O que seria? Algum pedaço de pau? Alguma pedra? O pilão de ouro?

As parelhas de bois começaram a puxar a corrente que aos poucos vai saindo da água.

De repente, começa a surgir um pilão de ouro, que com a luz do sol, brilhava tanto, chegando a ofuscar a visão de todos que estava à margem do poço.

O fazendeiro, estonteado com tanta riqueza, ficando fora de si, começou a gritar: Por que dar metade à Santa? Santo não precisa de ouro! Esse ouro é todo meu!

A corrente que podia suportar até o peso de um carro de bois, tem um ele estourado e o pilão volta ao fundo do lago.

Com o estouro da corrente, o fazendeiro, os capitães do mato, os escravos e as parelhas de bois que estavam à beira do poço, foram atingidos em cheio e morreram na hora. Os que estavam mais longe conseguiram se salvar e fugiram desesperados.

Pois é caros leitores, a ambição e o egoísmo são o que mais castigam o ser humano.

Nunca mais ninguém tentou recuperar os lendários pilões de ouro.

Hoje repousam num lago muito maior do que o “Poço do Ouro”!
A majestosa Represa do Jaguari!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Rua Direita - Principal rua da velha Igaratá


Rua Direita - Principal rua da velha Igaratá

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

SERENATAS AO LUAR

Durante a minha juventude, lá pelos anos 60, na Velha Igaratá, pouco se tinha o que fazer.

Nadar, pescar, jogar bola, snooker, e de vez em quando, um bailinho à luz de lampião, eram os únicos entretenimentos.

Para matar o tempo, formamos um conjunto com as seguintes pessoas: João do Orioste no cavaquinho, Abrãozinho no pandeiro, Zé Camargo no surdo e eu no violão.

Principalmente nas noites de lua cheia, lá íamos nós de porta em porta fazendo àquela gostosa serenata. As músicas prediletas eram as do Nelson Gonçalves como; A volta do Boêmio, Deusa do Asfalto, Renúncia por mim cantadas e outras de autoria de Waldir Azevedo e Jacó do Bandolim, soladas no cavaquinho do João do Orioste, sendo as mais solicitadas, Brasileirinho, Carinhoso, Doce de Coco, Pedacinho do Céu e muitas outras mais.

Geralmente, no encerramento, cantávamos a valsa Saudades de Igaratá de autoria da poetisa Petronilha de Souza, genitora do cartunista Mauricio de Souza.

Lá pelas vinte horas, íamos nós com destino ao sítio do Donzinho, distante uns três quilômetros da Velha Igaratá, carinhosamente chamada de “Vila”, bem a beira da Estrada do Rio do Peixe. Don também era amante da música romântica. Tinha um acordeom de oito baixos e sempre nos recebia com muita satisfação. Ficávamos mais ou menos até às vinte e duas horas.

Don jamais deixava sairmos sem primeiro oferecer um suculento café acompanhado de fartas guloseimas preparadas pela sua esposa Dª Giselda.

Essa era a hora que, aproveitando da nossa ausência da sala de visita, derrubava um pouco de rapé em cima dos instrumentos. Dá para perceber o que acontecia no nosso retorno. Ao dedilharmos o cavaquinho, o violão, as pancadas no pandeiro e no surdo, o rapé se espalhava pelo ar. Eram espirros para todos os lados. Ninguém sabia o que estava acontecendo. Só depois de muito tempo é que fomos descobrir.

Na volta para a “Vila”, a nossa primeira parada obrigatória era a chácara do Professor Jaime dos Santos, marido de Dª Cinira e genitor da Nanci mais conhecida na época como Dona Nanci do Cartório. Seu Jaime, professor aposentado, também era músico. Tocava um dos mais belos instrumentos musicais. O violino!

Aí ficávamos até às vinte e três horas. Éramos também muito bem recebidos pelo casal, sem, esquecer da Nanci com aquela simpatia que muito lhe é peculiar. Da chácara do Sr. Jaime até a “Vila” a distancia não passava de um quilômetro. Nesse ínterim, parávamos com a nossa seresta, já que não havia nenhuma casa nesse trecho. Precisávamos também tomar um fôlego, já que haviam mais duas paradas obrigatórias. A primeira, pertinho do Ribeirão das Palmeiras, há cem metros do centro da “Vila”. A casa do Zé Igaratá. Chegávamos bem na surdina para não despertar a família, pois o importante de uma serenata é a surpresa. É ser acordado com o som de música romântica e sentimental.

Após tocarmos uma ou duas músicas, pois geralmente de dentro da casa sempre era solicitado “mais uma”, era o que fazia nos sentirmos realizados. Zé Igaratá não deixava por menos: Deus lhes pague! Muito obrigado!

Assim continuávamos a nossa peregrinação até a janela da casa do Zezinho Vaz, já bem no centro da rua principal.

É normal, com a mudança da temperatura, as cordas do cavaquinho e do violão desafinarem. As vezes isso acontecia, e por nossa infelicidade, bem de baixo da janela da casa do Zezinho Vaz! Este não perdoava; antes de começarmos a seresta ele já gritava: Vão afinar os instrumentos lá na p. q. p. Vocês já devem ter interpretado o teor na frase.

Como já estávamos acostumado com essa reação, não ligávamos e duas ou três músicas eram por mim cantadas e soladas pelo cavaquinho do João do Orioste. No final acontecia o de sempre: Muito obrigado!

Com essa apresentação, terminávamos com a nossa serenata, pois já passava da meia noite. Cada um seguia para o seu lado...